A apresentação do Mogwai no Rio de Janeiro não teve estrutura de concerto internacional: pareceu só mais um daqueles shows de bandas locais que ocorrem todo fim-de-semana. Este fato possui suas vantagens e desvantagens: foi barato, e o lugar (armazém 5 do cais do porto) era agradável por dentro, acolhedor; por outro lado, era extremamente mal-localizado e a divulgação foi péssima.

Mas, enfim, as bandas de abertura foram: Casino, do Rio; valv, de BH, ; Astromato, de Campinas.

O Mogwai demorou um bocado para subir ao palco. Um único roadie levou mais de uma hora para acertar as afinações das diversas guitarras, colocar em ordem os inúmeros pedais, posicionar as cadeiras entre os amplificadores, e apontar os canhões de luz para a cara dos espectadores, grudados no palco baixo. Mas, por volta da uma da manhã, a música começou. Sem muitas expressões faciais (se limitavam a dizer "thank you" ou a reclamar de alguma coisa), os escoceses já começaram com as ótimas "You Don't Know Jesus" e "Fear Satan", cheias de explosões de guitarras, levadas empolgantes de pratos, crescendos animadores.

O primeiro dos três clímaxes do show foi durante o hit "CODY", a voz calma e cativante de Stuart Braithwaite foi acompanhada em coro por aqueles poucos que conheciam as letras da única música cantada do show. Mas, mesmo quem não cantou, foi tocado pela beleza desta singela melodia. E o show seguiu com pontos altos e baixos. O público calmo, de menos de mil espectadores, que veio ver a banda (cabiam cinco mil no armazém), foi agraciado com a proximidade do palco e com belas luzes posicionadas entre a bateria, o teclado, e os demais integrantes. Teve flauta, poucas bases pré-gravadas, mais explosões de guitarra, mais levadas empolgantes de pratos, mais crescendos animadores. Pois é, deve-se admitir que, se a banda houvesse selecionado com mais critério o setlist, colocando, por exemplo, "Take Me Somewhere Nice" ou "Secret Pint" ao invés de "Like Herod" e "Helicon", o show teria sido mais dinâmico, interessante. Não que tenha sido chato em momento algum, houve apenas uns poucos momentos em que tudo pareceu levemente repetitivo.

As duas últimas músicas, no entanto, apresentaram surpresas do início ao fim. Surpresas deveras agradáveis, por sinal. "2 Rights Make 1 Wrong" talvez tenha sido o melhor momento do show, não apenas pelo calafrio que provocava o vocoder e, mais pro fim, a bateria eletrônica trabalhada ao vivo, outrossim pela unidade que a banda alcançou ao interpretar a música para o público. A épica "My Father My King" fechou a noite, deixando a platéia boquiaberta, incapaz de reagir. Cordas foram arrebentadas (de propósito), distorções foram levadas ao último limite, estática e microfonia foram utilizadas para criar o clima perfeito e desenhar no ar tudo que se esperava de um show do Mogwai. Tudo muito, muito alto.

O pior de tudo é depois tentar dormir.


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